Inteligência artificial, medicina de precisão e novos tratamentos devem ampliar as possibilidades da especialidade. Para o Dr. Francisco Pascoal Jr., porém, a escuta, o vínculo e a capacidade de compreender a história do paciente continuarão no centro da prática psiquiátrica.
No dia 13 de agosto, o Brasil celebra o Dia do Psiquiatra, uma data dedicada aos médicos que atuam no diagnóstico, na prevenção e no tratamento dos transtornos mentais. A escolha do dia está ligada à própria história da especialidade no país: em 13 de agosto de 1966 foi fundada a Associação Brasileira de Psiquiatria, a ABP.
Se a data convida a olhar para a trajetória da profissão, também abre espaço para uma pergunta inevitável: como será o futuro da psiquiatria?
A resposta passa por inteligência artificial, biomarcadores, medicina de precisão, neuromodulação e acompanhamento digital dos pacientes. Mas passa também por algo muito anterior a qualquer tecnologia: a capacidade de ouvir e interpretar uma história de vida.
Essa combinação aparece nas perspectivas do Dr. Francisco Pascoal Jr., psiquiatra mestre e doutor em Gerontologia Biomédica e coordenador da pós-graduação em Psiquiatria da Inspirali Pós Medicina.
Para o Dr. Francisco, a próxima década poderá modificar profundamente a maneira de acompanhar pacientes, diagnosticar transtornos e escolher tratamentos, sem retirar do médico a responsabilidade pela tomada de decisão. Pelo contrário, a tendência é que essa responsabilidade aumente.
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Uma das principais mudanças no futuro da psiquiatria poderá acontecer antes mesmo do diagnóstico. Segundo o Dr. Francisco, a especialidade tende a avançar de uma atuação predominantemente reativa para um cuidado preventivo, contínuo e personalizado.
Hoje, muitos pacientes chegam ao atendimento quando o sofrimento psíquico já provocou consequências importantes: perda de funcionalidade, rupturas familiares, afastamento profissional, uso nocivo de substâncias, tentativas de suicídio ou sucessivos tratamentos sem resposta adequada.
O avanço da capacidade de reconhecer trajetórias de risco poderá permitir intervenções mais precoces. Nas palavras do coordenador de Psiquiatria:
“Nos próximos anos, teremos a oportunidade de construir mais recursos para identificar trajetórias de risco e intervir antes que o transtorno se manifeste em toda a sua gravidade.”
Dr. Francisco também acredita que as consultas psiquiátricas deixarão de serem eventos isolados. Isso porque, com o consentimento do paciente e critérios éticos rigorosos, informações relacionadas ao sono, à atividade física, ao funcionamento cognitivo, à adesão ao tratamento e às alterações comportamentais poderão complementar o acompanhamento clínico.
Na prática, o psiquiatra poderá observar uma trajetória, em vez de depender apenas das informações disponíveis no momento da consulta.
Mais dados, menos tentativa e erro?
Essa mudança está diretamente relacionada a uma das principais discussões sobre o futuro da psiquiatria: a medicina de precisão.
A inteligência artificial já consegue apoiar tarefas como a organização de prontuários, a síntese de informações e a documentação clínica. A expectativa apontada pelo Dr. Francisco é que ferramentas desse tipo avancem na identificação de padrões relacionados ao risco de recaída, ao comportamento suicida, aos efeitos adversos, à adesão e à resposta aos tratamentos.
A diferença poderá estar principalmente na capacidade de cruzar informações que hoje costumam ser analisadas separadamente. História clínica, escalas psicométricas, exames laboratoriais, genética, neuroimagem, eletroencefalograma, sono, voz, linguagem e atividade motora são alguns dos dados que poderão alimentar avaliações cada vez mais individualizadas.
Isso abre caminho para reduzir um problema conhecido na prática psiquiátrica: a tentativa e erro na escolha terapêutica.
“Em vez de perguntar apenas qual medicamento costuma funcionar para este diagnóstico, passaremos a perguntar qual estratégia possui maior probabilidade de funcionar para esta pessoa, neste momento de sua vida, considerando suas características clínicas, biológicas, psicológicas e sociais”, prevê o Dr. Francisco.
A perspectiva, contudo, exige cautela. O coordenador de Psiquiatria da Inspirali Pós Medicina ressalta que a maioria dos transtornos mentais não possui um exame isolado capaz de estabelecer o diagnóstico ou determinar com segurança qual tratamento terá melhor resposta.
A heterogeneidade permanece como uma característica da psiquiatria: duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter sintomas, histórias, mecanismos biológicos e necessidades bastante diferentes.
O avanço da inteligência artificial também traz uma questão menos tecnológica e muito mais clínica: até onde delegar decisões a um algoritmo?
Para o Dr. Francisco, as novas ferramentas devem ampliar a capacidade de julgamento do psiquiatra, mantendo o médico responsável por interpretar as informações e reconhecer as limitações dos sistemas utilizados. Ele afirma que:
“A inteligência artificial deve ampliar a capacidade de julgamento do médico, e não a substituir. Quando uma ferramenta tecnológica começa a decidir sem que o profissional compreenda seus limites, ela deixa de ser apoio e passa a representar risco.”
Privacidade, segurança dos dados, vieses algorítmicos e desigualdade de acesso aparecem entre os desafios. Um sistema treinado predominantemente com informações de determinados grupos populacionais, por exemplo, pode apresentar desempenho inferior quando aplicado a pessoas pouco representadas em sua base de treinamento.
Há ainda uma distinção importante entre identificar um padrão e compreender o que ele significa para determinada pessoa.
Uma queda brusca na atividade diária pode estar associada à depressão, mas também ao luto, à exaustão, a uma doença clínica, a dificuldades financeiras, à violência doméstica ou simplesmente a uma alteração da rotina. É a investigação clínica que situa o dado dentro de uma história.
“O melhor e mais fidedigno exame na psiquiatria sempre foi, é e continuará sendo a rica e complexa história de vida de cada um”, sintetiza Dr. Franscisco.
Enquanto os recursos diagnósticos avançam, as demandas dirigidas aos psiquiatras também mudam.
Os transtornos depressivos e ansiosos devem continuar ocupando posição importante pela frequência e pelo impacto na funcionalidade e na qualidade de vida. Ao lado deles, o Dr. Francisco aponta demandas associadas ao esgotamento profissional, à solidão, às violências, às migrações, às emergências climáticas, às desigualdades sociais e às novas formas de precarização do trabalho.
Além disso, a saúde mental de crianças e adolescentes merece atenção particular. Redes sociais, jogos, estímulos contínuos, comparação social e violência virtual já fazem parte do cotidiano das novas gerações. Para o Dr. Francisco, porém, analisar essa relação exige superar explicações simplistas baseadas somente no tempo de tela.
Sono, dependências químicas e comportamentais, transtornos alimentares, comportamentos autolesivos e risco de suicídio também devem ganhar relevância. O mesmo vale para a procura por avaliações relacionadas ao TDAH, ao transtorno do espectro autista e aos transtornos do humor.
O aumento da conscientização pode permitir que pessoas anteriormente desassistidas encontrem cuidado. Ao mesmo tempo, conteúdos superficiais nas redes sociais podem favorecer autodiagnósticos e o uso indiscriminado de categorias psiquiátricas.
No entendimento do Dr. Francisco:
“Um dos maiores desafios será diferenciar reação às circunstâncias da vida e transtorno mental propriamente dito. Nem todo sofrimento é doença, mas todo sofrimento merece escuta. O diagnóstico deve abrir caminhos para o cuidado, não aprisionar a pessoa em um rótulo”.
Em meio a esse cenário, o envelhecimento populacional acrescenta mais uma frente. Transtornos neurocognitivos, depressão em idosos, luto, isolamento social, polifarmácia e saúde mental dos cuidadores deverão ocupar espaço crescente na assistência.
O futuro da psiquiatria também deverá ser marcado pela diversificação das possibilidades terapêuticas.
Ao lado dos psicofármacos tradicionais e das psicoterapias, o Dr. Francisco prevê maior incorporação de técnicas de neuromodulação, tratamentos de ação rápida, intervenções digitais, realidade virtual e abordagens direcionadas a circuitos cerebrais e mecanismos fisiopatológicos específicos.
Para 2035, ele projeta uma prática híbrida, combinando consultas presenciais e remotas e ampliando a integração da Psiquiatria com áreas como Neurologia, Medicina do Sono, Clínica Médica, genética, psicoterapia e saúde digital.
Além disso, o especialista acredita quem os sistemas de inteligência artificial poderão preparar informações antes do atendimento, identificar mudanças relevantes na evolução e apoiar a documentação. Tal realidade será impulsionada por dispositivos autorizados pelo paciente, que poderão fornecer dados de sono, atividade e parâmetros fisiológicos.
O objetivo disso tudo é reconhecer pequenas alterações antes que um episódio de mania, depressão ou descompensação psicótica se manifeste plenamente.
Ao mesmo tempo, o próprio modo de classificar os transtornos poderá mudar. Algumas condições atualmente agrupadas sob um único diagnóstico talvez revelem mecanismos distintos. A classificação psiquiátrica poderá, então, incorporar progressivamente dimensões relacionadas a circuitos, mecanismos, trajetórias e perfis de funcionamento.
Com tantas ferramentas disponíveis, o que um médico que pretende atuar na área precisa aprender?
Para o Dr. Francisco, a resposta começa pela formação médica.
“Antes de ser psiquiatra, é necessário ser médico.”
Isso significa saber reconhecer doenças clínicas e neurológicas capazes de produzir sintomas psiquiátricos, compreender interações medicamentosas, interpretar exames e manejar urgências.
Também significa dominar psicopatologia. A capacidade de reconhecer alterações do pensamento, da percepção, do afeto, da psicomotricidade, da consciência e da crítica permanece indispensável justamente em um período no qual escalas e ferramentas digitais estarão cada vez mais acessíveis.
O repertório do profissional deverá incluir ainda psicofarmacologia, princípios de psicoterapia, neurociências, ética, avaliação de risco, comunicação clínica e trabalho interdisciplinar.
A alfabetização digital passa a integrar essa formação. O psiquiatra não precisará necessariamente programar, mas deverá compreender minimamente como os algoritmos utilizam dados, como são validados e quais são seus limites.
E precisará conviver bem com uma característica antiga da Medicina: a incerteza.
“Um bom profissional não é aquele que transmite certezas artificiais, mas aquele que consegue sustentar a dúvida com responsabilidade, construir hipóteses e revisar suas decisões ao longo do acompanhamento”, resume Dr. Francisco.
Há ainda um aspecto que diz respeito ao próprio médico. O coordenador da Inspirali chama atenção para a necessidade de o psiquiatra proteger sua saúde mental diante do contato frequente com sofrimento intenso, violência, desesperança e risco de morte.
De tal forma, supervisão, psicoterapia, estudo contínuo, limites profissionais e espaços de elaboração também fazem parte da preparação para uma carreira sustentável na especialidade.
Há um aparente paradoxo no futuro da psiquiatria imaginado pelo Dr. Francisco. Quanto maior for a presença tecnológica, maior poderá ser o valor atribuído às habilidades humanas.
Escuta, empatia, curiosidade clínica, humildade, capacidade de tolerar incertezas e disposição para compartilhar decisões deverão permanecer entre as competências centrais do psiquiatra.
Nesse contexto, eficiência tecnológica ganha sentido quando permite ao médico dedicar menos tempo à burocracia e mais tempo ao encontro clínico.
O Dr. Francisco acredita que:
“Nenhuma inteligência artificial deve ser utilizada como uma forma sofisticada de evitar o encontro com o paciente. A eficiência tecnológica só terá valor quando devolver tempo e qualidade à relação terapêutica.”
Talvez essa seja uma das mudanças menos óbvias das próximas décadas. Em uma rotina cada vez mais mediada por sistemas automatizados, a possibilidade de falar sem pressa e ser ouvido com atenção pode adquirir ainda mais valor terapêutico.
A psiquiatria de 2035 poderá dispor de mais dados, tratamentos, biomarcadores e instrumentos para acompanhar seus pacientes. Ainda assim, as perguntas que orientam a especialidade deverão permanecer familiares: quem é essa pessoa, o que aconteceu em sua trajetória, do que ela sofre e como ajudá-la a recuperar autonomia, vínculos, esperança e sentido?
Para o Dr. Francisco, é nessa combinação entre ciência, tecnologia e encontro humano que se decide o verdadeiro futuro da psiquiatria:
“O futuro da Psiquiatria não será determinado apenas pelas tecnologias que conseguirmos desenvolver, mas pelo uso ético e humano que fizermos delas”, finaliza o especialista.
E já que estamos falando sobre o futuro da psiquiatria, que tal se informar melhor sobre como usar a inteligência artificial na prática médica? Para isso, convidamos você a ler o nosso artigo sobre prompts de IA para médicos. Apresentamos exemplos de como usar ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity e DeepSeek na prática médica. Leia agora!